PAPO DE CINEMA | Han Gong-ju
👨🏽💻Dados Técnicos
Cor
Coréia do Sul
112 min.
Título em Coreano: 한공주
Título Romanizado: Han Gong Ju
Datas de lançamento: 04 de outubro de 2013 (Busan International Film Festival) e 17 de abril de 2014 (Coréia do Sul)
Direção, Roteiro e Produção: Lee Su-jin
Elenco: Chun Woo-hee (Han Gong-ju), Jung In-sun (Eun-hee), Kim So-young (Hwa-ok), Lee Young-lan (Sra. Cho), Kwon Beom-taek (Chefe da Subestação de Polícia), Jo Dae-hee (Lee Nan-do), Choi Yong-joon (Dong-yoon), Kim Hyun-joon (Min-ho), Yoo Seung-mok (pai de Gong-ju), Sung Yeo-jin (mãe de Gong-ju), Kim Jung-suk (novo marido da mãe de Gong-ju), Son Seul-gi (Min-suh), Lee Chung-hee (Chung-hee), Kim Ye-won (Ye-won), Lee Ja-yeon (Ja-yeon), Oh Hee-joon (membro da gangue de Min-ho), Ha Jeong-hee (Professor da Escola), Im Dong-seok (pai de Dong-yoon) e Min Kyung-jin (Diretor da Escola)
Cinematografia: Hong Jae-sik
Edição: Hyun-sook
Música: Kim Tae-seong
Distribuição: CGV Movie Collage
Idioma: Coreano
✍🏽Sinopse
Han Gong-Ju é levada para uma casa em uma área desconhecida. A casa pertence à mãe do ex-professor de sua escola. A mãe quer saber por que seu filho está deixando Han Gong Ju lá, mesmo que ele promete que ela vai estar lá para apenas uma semana. Uma investigação está em curso de volta a cidade natal de Han Gong-Ju. Pode Han Gong-Ju escapar de seu passado?
⚖️Créditos da Sinopse: Asian Wiki
Inomináveis Saudações a todos vós, Povo do Memória!
Este filme foi baseado nos eventos que ocorreram com uma das vítimas do atroz caso de estupro coletivo da Gangue de Miryang, esta uma pequena cidade sul-coreana, que ocorreu durante onze meses do ano de 2004. A primeira vítima foi uma menina do Ensino Médio, atraída por um aluno do mesmo Período Escolar que conheceu pela Internet para um encontro pessoal. Agredida por uma barra de aço até desmaiar, ela foi levada para um motel, onde outros alunos foram chamados pelo agressor e todos estupraram-na. Eles tiraram fotos e ameaçaram expô-la, obrigando-a a se encontrar mais vezes com eles; dez estupros feitos por três a vinte e quatro estudantes, a cada encontro, até que eles pediram-lhe para levar até eles uma prima e uma irmã mais nova dela. Seguiram-se onze meses de abusos, com quarenta e um alunos no total sendo os que se aproveitaram das três meninas; e outras duas chegaram também a ser violentadas pelo mesmo grupo. O caso foi a público, mas todos os estupradores saíram praticamente ilesos, sem grandes consequências punitivas para qualquer um deles. No máximo, onze meses foi o período mais longo de prisão para um entre os dez (sim, apenas dez) que chegaram a ser indiciados. As meninas, entretanto, foram massacradas, arruinadas, acusadas de "seduzir os meninos", perseguidas onde quer que fossem e, atualmente, desapareceram completamente para não continuarem sendo atacadas como se elas fossem as criminosas. E o que é mais terrível e surreal: um dos estupradores delas se tornou um policial da mesma delegacia em Miryang que investigou o caso.
O repugnante desenrolar e desfecho do caso causa-me um tremendo nojo. Esta é mais uma daquelas Resenhas nas quais tive que me preparar psicologicamente com extrema força para poder escrevê-la. É algo fora do normal tanta injustiça, tanta crueldade e tanta maldade, somadas, na história que inspirou este filme. Narrando de um ponto de vista a desenvolver a demonstração de que as consequências de todas aquelas atrocidades são diárias punhaladas na alma de uma vítima, o Diretor, Roteirista e Produtor Lee Su-jin nos deixa transitar pelo plano mais interiorizante da brutalíssima realidade envolvendo o tema do filme. Han Gong Ju não apela para a exploração excessiva de cenas de abuso, estas surgem como uma necessidade da narrativa de modo natural, negando-se a serem explícitas ou prolongadas demais. Já é o suficiente observar durante o decorrer do filme a construção do cenário dos crimes e do quanto isto custa ao causar impactos graduais no espectador. O estado de choque no qual fiquei com as cenas de ataques sexuais não nasceu de uma utilização gratuita do mesmo para apenas chocar. Tanto quanto em "My Little Baby, Jaya" (filme que futuramente será aqui resenhado), as cenas tem o propósito de integrar a quem assiste dentro de algo que neste exato momento mesmo pode estar a ocorrer em qualquer lugar do mundo. É para fazer pensar, mais do que revoltar simplesmente por querer fazer revoltar. É para fazer ver tudo do ponto de vista da vítima, mais do que se aproveitar desta para desenvolver uma obra em busca de fama e dinheiro. É para fazer um envolvimento todo de quem assiste para a relevância de discussões possíveis do pior dos crimes que existe.
Pior porque as vítimas que sobrevivem a estupros coletivos são vitimizadas pelas lembranças, pelos medos que surgem, pelo trauma existencial que as acompanhará até o fim das existências delas. O pior, porém, é o julgamento da sociedade, o típico e clássico caso de julgar o sexo feminino pelo estupro, sempre, sempre, sempre… Vemos isto logo no início do filme quando Gong-ju pergunta aos que parecem ser Assistentes Sociais: "Eu fiz alguma coisa de errada?". E esta pergunta acompanha a personagem durante todo o filme, sendo um impulso para a mais triste sequência possível de situações. Ninguém se importa com ela, o que em momentos importantes do filme é mostrado literalmente, de diferentes modos, com uma câmera que capta as reações daqueles que descobrem o que houve com ela. Ninguém quer ter uma maior responsabilidade com ela, incluindo a mãe que a abandonou e não a acolhe quando a mesma busca-lhe o amparo. O pai é um canalha que aceitou o dinheiro de um acordo para esquecer o caso e a senhora que a acolheu em casa a pedido do filho, Professor da menina, ao saber o que ocorrera com ela, não quis ter a responsabilidade de continuar a dar-lhe acolhimento. As violências contra Gong-ju continuaram, doloroso ao infinito perceber, ver e sentir isto no filme, o qual se caracteriza por abertamente enunciar a falta de empatia e de coração em muitas pessoas.
As histórias paralelas ao caso de Gong-ju não chegam a ser atrasos no desenvolvimento temático do filme, muito por causa da clara intenção do Cineasta que o realizou em conectar todos a ela. E abafando e diminuindo todas as demais atuações do filme, a grande Atriz Chun Woo-hee merece todo tipo de elogio, aplauso e os Prêmios recebidos pelo papel. Esqueci que era uma personagem baseada em uma vítima de um caso real enquanto assistia ao filme e a vi como uma vítima real de tudo aquilo que de atrocidade foi feita contra ela. Grandes Atrizes são assim e o filme, que também foi bastante premiado, ganhou ainda mais grandiosidade por causa da atuação dela, sem elevar o tom, sem exagerar na dramaticidade e sem trejeitos caricaturais para caracterizar uma menina que foi tão abusada, humilhada, destruída e retirada, praticamente, de uma existência normal e decente na sociedade. Todo o peso das acusações contra ela, as perseguições, a falta de compreensão de quem ela busca por ajuda e a sensação de aguda solidão foram apenas pelo olhar transmitidos pelo tocante trabalho interpretativo de Woo-hee. Carregando tanto isso tudo quanto todo o filme nas costas, ela auxiliou ao grande Realizador que é Lee Su-jin a modelar uma sensível, humana e bela obra.
Há um interessante recurso poético na narrativa em seu momento final que tem algo a ver com um fato que foi dolorosíssimo para Gong-ju. Algo a ver com a água, Elemento Purificador que lava de toda impureza e batiza para uma nova vida. O final dele pode ser melhor compreendido sobre este meu sugestivo ponto de vista, o qual não é uma imposição para a interpretação de quem for assistir ao filme. Nada, porém, apaga todas as violências contra Gong-ju, assim como todas feitas contra as meninas em nossa "vida" chamada de "real". Escrever sobre o que assisto de filmes que me reviram é sempre pesado e a emoção, a revolta e a sensação de que não posso fazer nada pelos personagens que sofrem me abate e deprime ainda mais do que eu sou deprimido. Para quem chegar aqui no blog para ler esta Resenha, digo que não entrego jamais um spoiler e escrevo com emoção, com o coração, tentando ser imparcial e não conseguindo. Isto é algo que venho aqui pontuando em minhas Resenhas, pois eu não sou um Profissional ou Estudante de Cinema. Apenas sou o que eu sou: um homem que sempre se identifica com as vítimas dentro e fora da Ficção, com lágrimas nos olhos ao escrever cada linha de uma Resenha de obras que falam das podres cinzas do Mal que é alimentado por parcelas consideráveis da Humanidade. Quando digo parcelas, me refiro aos que nada sentem ao assistirem um filme como este ou não se revoltam quando casos de estupro na nossa realidade são expostos. Isto é ser conivente com o crime e tudo piora quando usam de justificativas para culpar uma menina ou uma mulher. Han Gong Ju é um filme que explícita isto e assistido em qualquer época e qualquer lugar tende a erguer reflexões da parte de quem se importa com quem é vitimizado.
Meu desejo é que as vítimas reais do Estupro de Miryang estejam hoje tendo todo o apoio e a ajuda que necessitam para poderem continuar suportando a existência delas. Não posso desejar que estejam bem porque uma vítima de abuso sexual jamais voltará a ser o que era antes deste, por mais que sejam tratadas pelos maiores e melhores Psicólogos e Psiquiatras da Terra ou adotem uma crença religiosa. Realista sem hipocrisia eu sou e dói, dói demais, saber que em nosso Plano Existencial as coisas não se resolvem como em um cantinho infantil de Fadas. Han Gong Ju é um filme mais realista ainda ao exponencialmente mostrar isto, sem hipocrisia, sem afetação e sem deixar de fazer uma duríssima crítica à Sociedade Sul-Coreana. Crítica que pode ser incorporada, com as devidas proporções e contextos sócio-culturais, a outras Sociedades onde as vítimas do sexo feminino é quem são vistas como monstros em lugar dos verdadeiros monstros que agrediram-nas.
Saudações Inomináveis a todos vós, Povo do Memória!



















































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