PAPO DE CINEMA | The World Of Kanako
👨🏽💻Dados Técnicos
Japão
Cor
2014
118 min.
Direção: Tetsuya Nakashima
Roteiro: Tetsuya Nakashima, Nobuhiro Monma e Miako Tadano
Baseado no livro Hateshinaki Kawaki de Akio Fukamachi
Produção: Satomi Kotake e Yutaka Suzuki
Elenco: Kōji Yakusho (Showa Fujishima), Nana Komatsu (Kanako Fujishima), Hiroya Shimizu (Sigon), Fumi Nikaido (Nami Endo), Satoshi Tsumabuki (Detetive Asai), Joe Odagiri (Detetive Aikawa), Hiroki Nakajima (Shimatsu), Ai Hashimoto (Emi Morishita), Asuka Kurosawa (Kiriko), Miki Nakatani (Rie Azuma), Hitoshi Hoshino (Seiji Ogata), Mahiro Takasugi (Yasuhiro Matsunaga), Jun Kunimura (Dr. Tsujimura), Munetaka Aoki (Sakiyama), Aoi Morikawa (Tomoko Nagano), Yasuo Koh (Cho), Megumi Hatachiya (esposa do Detetive Aikawa), Daichi Watanabe (Hiroshi Kawamoto), Shouno Hayama (Blond Boy)
Cinematografia: Shoichi Ato
Edição: Yoshiyuki Koike
Música: Grand Funk Inc.
Companhia Produtora: Gaga Communications
Distribuição: Gaga Communications e Wild Bunch
Idioma: Japonês
✍🏽Sinopse
Akikazu Fujishima é um ex-Detetive que perdeu o emprego, o casamento e a filha depois de ter uma reação violenta à infidelidade de sua esposa. Desde então, ele se tornou um alcoólatra disfuncional e instável. Muitos anos depois, sua ex-esposa Kiriko entra em contato com ele para dizer que sua filha desapareceu. Akikazu começa a investigar o desaparecimento, com o Detetive da Polícia Asai ostensivamente ajudando, mas na verdade raramente se envolvendo na busca. Os métodos de Akikazu envolvem assediar e intimidar aqueles com quem ele fala, incluindo ex-colegas e professores de Kanako, mas nenhum deles está disponível. No entanto, ele descobre que ela se envolveu com usuários de drogas e suspeita que eles a transformaram em uma viciada.
⚖️Créditos da Sinopse: Wikipedia
Filme anárquico, louco, arriscado, brutal, exagerado, inconsequente, cínico, provocativo, ultraviolento, desagradável, doentio e difícil de ser abandonado quando as cenas mais brutais se passam. Baseado na obra Hateshinaki Kawaki de Akio Fukamachi e nada recomendável para a grande maioria das pessoas que não gostam de ser incomodadas com questões de pesos insuportáveis. Kanako (Nana Komatsu) é uma babaca filha da puta traiçoeira, fria e psicótica envolvida com Prostituição, Pedofilia, Estupros Coletivos e Tráfico de Drogas. O pai dela, Akikazu Fujishima (Kōji Yakusho), um esquizofrênico que era policial e sai em busca da mesma quando desaparece, é outro babaca filho da puta, um misógino, estuprador e também psicótico que, conforme o filme deixa bem claro, abusou sexualmente da filha durante anos. Se você aí é daqueles que acham que a adaptação de The Boys é "pesada", creio que não aguentaria ficar assistindo este filme que apresenta TRÊS cenas de estupro. Você encararia este Mundo como eu inominavelmente encarei, meu jovem Padawan, minha jovem Padawan?
Inomináveis Saudações a todas e a todos vós, Povo do Memória!
Acima, meu breve comentário sobre The World Of Kanako na antiga versão de meu blog O Mundo Inominável no mês de Julho (do dia 07 ao 10) de 2022, parte de uma maratona de três dias nos quais assisti dez filmes asiáticos. É um sintético resumo de um filme que muito poucas pessoas são capazes de assistir sem se sentirem ofendidas ou agredidas, revoltadas ou enojadas. Obra de Tetsuya Nakashima, o mesmo Diretor do igualmente brilhante e incômodo Confessions (cuja Resenha publicarei domingo aqui no Memória), se estabelece como um filme de extremismos e densidades naturais como se estivesse sendo filmado em tempo real. Como ocorre no Cinema Japonês e Asiático de uma maneira tradicional, as sequências acabam propondo uma linguagem bastante estranha com a intenção de tornar o filme tão sombrio quanto possível. Estranha porque é a narração visual de doenças existenciais vistas bem mais de perto do que se deve. Uma narração muito além dos desequilíbrios psicológicos dos dois personagens centrais do filme, Kanako e seu pai. Mais estranheza ainda é alguém, como espectador, não se questionar o porquê de tal história não ter sido abandonada logo após o primeiro estupro ter sido mostrado.
Logo ao me chocar contra o primeiro estupro, minha vontade não foi de abandonar o filme. Foi de continuar assistindo para ver até onde o Diretor seria capaz de chegar em termos de descida aos abismos do comportamento humano. Concluo até que Nakayama foi amoral e isentou-se de frear a adaptação de um livro que, após assistir o filme com o coração e a mente parados, muito quero ler. Infelizmente, Hateshinaki Kawaki de Akio Fukamachi não se encontra disponível em Português na Amazon até o presente momento, nenhuma Editora brasileira se interessou até agora em traduzir a tão polêmica obra japonesa. A vontade da leitura em mim também vai permanecer, claro, pois o material original de uma criação adaptada para outros meios sempre vai oferecer oportunidades diversas de variadas nuances de novos ângulos em perspectiva da narrativa. Sob o ângulo do Diretor, temos um filme que em 99% de sua metragem é Passado e Futuro girando em torno da lenda maldita de Kanako que de modo negativo passou por diversas vidas. Sob o meu ângulo como espectador e cinéfilo, tudo sintetizei antes de iniciar esta Resenha republicando uma parte de uma Postagem anterior do blog. Entretanto, apenas estes três ângulos (Diretor, Espectador, Cinéfilo) reduzem de modo precário a totalidade essencial da obra. Dentro desta, três ângulos são perspicazes quanto a existirem como planos sequenciais movendo cada peça dos jogos de um xadrez existencial macabro aqui jogados: os olhares de Sigon, Akikazu e Kanako.
Passado. Sigon é o atormentado alvo de um bastante duro e violento processo de bullying na Escola. Muito fraco em personalidade, sem qualquer atitude de dignidade para enfrentar os bullies de merda que o brutalizam. Há uma garota entre os perseguidores dele, o que aumenta ainda mais a vergonha dele por não ter forças para reagir. E Kanako se aproxima dele, o magnetiza com sua presença, seu olhar muito estranho e sua voz sedutora com uma firme sutileza. Ela o torna livre da perseguição toda que sofria com a simples presença dela e não o obriga a entrar em seu Mundo. Com uma simples pergunta, Kanako o conduz para um fim bem pior do que apodrecer vendo o sol pelas grades de uma Casa Do Sol Nascente. Hiroya Shimizu tem uma grande atuação indo do Inferno ao Paraíso e de volta ao Inferno com a Garota Dos Sonhos de qualquer adolescente. Uma falsa imagem de uma Garota Dos Pesadelos que destrói a tudo e todos que toca.
Presente. Akikazu, o pai de Kanako, é uma figura lamentável, apodrecida e deplorável. Dentro da esquizofrenia dele há muita maldade, brutalidade, preconceitos e ódio. Não fica bem esclarecido no filme se ele abusou sexualmente da filha e se isso nela despertou a crueldade que foi se revelando múltipla até o final do filme. Flashbacks mostrando determinadas situações no quarto de Kanako com ele não dão uma certeza, também, da inocência dele. Como crer em um esquizofrênico ou crer em alguém pior do que isto em se tratando de distúrbios mentais como a Kanako (se é que a personagem tem mesmo algo do tipo na Psique)? Há muito desespero na busca dele pela filha desaparecida e a mente distorcida pela doença (e pela bebida) fazem-no piorar ao ponto de torná-lo monstruoso. Responsável por atos indindavelmente condenáveis no filme, Akikazu não é um personagem para ser admirado, não possui qualquer traço de um bom coração ou angaria simpatias da parte do público. A antológica atuação de Kōji Yakusho como dito execrável personagem é algo muito raro de se ver porque muitas poucas vezes um Ator se entrega tanto a um papel que tem a ver com a encarnação de uma pessoa irrecuperavelmente doentia. Kanako, para o pai, não é uma filha, mas um objeto de repulsa, de medo, de dor e de atração, esta sendo claramente observável no sentido mais carnal da palavra. Uma Filha Dos Sonhos para homens nada destrutivas em condições existenciais de uma harmônica normalidade. Na anormalidade de The World Of Kanako, uma Filha Dos Pesadelos a impregnar a existência do pai com desgraças, maldições e misérias.
Passado. Presente. Futuro. Não há, diretamente, o olhar de Kanako no filme, as sequências que envolvem-na diretamente tem tanto um misto de delírio e sonho quanto de obscuridade e a já mencionada crueldade dela. Também mencionado acima o fato da lenda que se reserva envolvente do existir dela, como se cada personagem do filme que a conheceu estivesse falando de uma pessoa diferente. Houve a Kanako da Escola, uma garota inspiradora para outras garotas; admirada por quase todas estas, que viam-na como uma Idol por causa da simpatia, do carisma e da beleza; desejada por todos os garotos; enfim, uma boa estudante, educada, recatada e fina. Houve a Kanako no Mundo dela, o verdadeiro, bem distante das máscaras que na Escola e em casa ela usava, onde ela pôde ser o que o filme mostra: uma patife, uma canalha, uma mentirosa, uma destruidora e uma criminosa. Houveram outras Kanakos antes e durante os eventos mostrados no filme? Determinados olhares da Nana Komatsu, incrivelmente perfeita em um papel totalmente cínico e dissimulado, dão algumas pistas e deixam tudo no ar ao mesmo tempo, somado ao fato de que o filme deixa muito claro, como mencionei antes de iniciar esta Resenha, que o pai abusou dela sexualmente, o que, com toda a certeza, a degenerou psicologicamente. A Atriz entrou para a História Do Cinema Asiático com uma atuação fantástica, nunca elevando o tom e nem o natural dom de até no silêncio transmitir o suave denso perigo de uma garota que mais se parece com uma Yokai em forma humana. Kanako atraia para seu Mundo aquelas e aqueles que viam-na como um Ser de algum Paraíso, revelando-se a mais letal serpente de toda forma possível de Inferno mordendo a alma, a mente e o coração daqueles que se deixaram inocentemente vitimar por ela. O pior tipo de pessoa que existe é aquela que publicamente aparenta ser em comportamentos e personalidade "a melhor e maior pessoa do mundo", exibindo distante dos olhos de quem compra tal perfeita imagem a verdade da falta de um caráter. Kanako é isso e muito mais, algo do qual o filme não se afasta para tentar amenizá-la ou diminuir-lhe a desagradabilíssima figura. E até no Futuro dos personagens tal criatura continuará presente, o que o final do filme apresentou, como uma obsessora existencial que somente trará tudo de ruim para quem não conseguirá esquecê-la.
Estranhamento houve quando me deparei no YouTube com vídeos romantizando a "relação" entre ela e Sigon. Não há qualquer graça em romantizar monstros como a personagem que dá título a este filme ou aos vários filmes parecidos com este produzidos no que chamamos de "vida real". Kanako é apenas uma escrota que atingiu o ponto máximo da escrotidão aniquilando diversas vidas, o fato de ter sido violentada pelo pai, para mim, não é uma desculpa para ela ter se tornado um verdadeiro monstro que é uma copia idêntica dele. O pai dela é outro escroto, com muitos pontos em comum com o comportamento babaca da mesma, reitero isto para afirmar que os dois não são as figuras mais agradáveis ou louváveis do Cinema Japonês e nem exemplos de personagens a serem idolatrados, endeusados e admirados. Sigon e os demais personagens que se reuniram em torno do conto sobre o mito de uma garota imortal em notoriedade como uma escrota babaca são apenas brinquedos dentro de uma Fantasia Das Humanas Trevas. Isto é Kanako, que passa longe, muito e muito e muito longe, de modo infindável, de ser uma heroína ou inspiração para pessoas reais. Entretanto, há loucos para tudo e nada duvido que alguma garota "inspirada" nela em algum lugar deste mundo esteja cometendo as mesmas ou outras atrocidades apenas para querer se divertir, tendo ou não traumas parecidas com a dela.
Mas, Kanako se divertia com tudo que fazia ou agia por agir, sem motivos? O abuso cometido contra ela pelo pai foi real ou fruto da esquizofrenia do mesmo? O que neste filme é delírio de pai filha? O que neste filme pode realmente explicar a sequência ininterrupta de descidas a diversos abismos a cada momento? Estas questão o filme também não responde. Nada no enredo de The World Of Kanako é mastigado e entregue de bandeja. O Mundo de uma garota perdida e que faz outros se perderem mesmo após desaparecer não é um simples reduto de facínoras como ela. É tudo muito mais complexo e complicado.
Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Povo do Memória!
TRAILER
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| Tetsuya Nakashima |
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ANEXO
Esta versão de The House Of The Rising Sun, gravada por Mai Yamane, é a parte da Trilha Sonora de The World Of Kanako que não saiu da minha cabeça desde que a ouvi no trecho de descendência existencial mais marcante do filme. Eis a letra:
There is a house in New Orleans
They call the Rising Sun
And it's been the ruin of many a poor boy
And God, I know I'm one
My mother was a tailor
She sewed my new blue jeans
My father was a gamblin' man
Down in New Orleans
Now the only thing a gambler needs
Is a suitcase and a trunk
And the only time he'll be satisfied
Is when he's all drunk
Oh, mother, tell your children
Not to do what I have done
Spend your lives in sin and misery
In the House of the Rising Sun
Well, I got one foot on the platform
The other foot on the train
I'm goin' back to New Orleans
To wear that ball and chain
Well, there is a house in New Orleans
They call the Rising Sun
And it's been the ruin of many a poor boy
And God, I know I'm one


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