PAPO DE CINEMA - "ERA UMA VEZ NO OESTE" - INICIO DE UMA NOVA TRILOGIA

 Toda vez que se fala em SERGIO LEONE, todos se lembram logo da "Trilogia dos Dólares". Poucos se lembram, ou sabem, que há uma segunda trilogia, a 'Trilogia "Era Uma Vez"'. E é por isto que nossa matéria hoje fala sobre o filme "Era Uma Vez No Oeste" que deu origem a ela. Claro que você não vai perder isto. Vai? 

Então, vamos lá!!! 





Logo após terminar o filme "Três Homens em Conflito", mais conhecido como "O Bom, o Mau e o Feio", Sergio Leone estava decidido a se aposentar dos filmes de faroeste; inclusive, havia garantido os direitos de filmagem do livro "The Hoods" ('Os Capuzes' ou 'Os Encapuzados'), escrito por Harry Grey (pseudônimo de um ex-gangster). O livro conta a trajetória de um grupo de jovens gangsters, desde a infância na década de 1920 até a ascensão no crime organizado. 




O problema é que a chamada "trilogia dos dólares" havia feito um poderoso efeito nos cinemas americanos. O faroeste que dominava as telas enfraquecia visivelmente e a 'trilogia' acabou por reavivar o gênero durante mais algum tempo. Em consequência, Hollywood queria que Leone fizesse mais filmes. E os convites ao diretor eram para este gênero. 


Até mesmo se criou um termo para se referir especificamente aos diretores Sergio Leone e Sergio  Corbucci ('Django'): "western Spaghetti". Como era de se esperar, o sucesso da trilogia e de Django fez com que uma 'enxurrada' de faroestes italianos invadisse os cinemas. Nem todos eram de boa qualidade; traziam todo o exagero dos italianos e, em consequência, o termo 'western spaghetti' passou a se referir a todos estes filmes  e de forma pejorativa…


Para convencer Leone a não abandonar os faroestes, a Paramount Pictures ofereceu ao diretor um bom orçamento e seu ator dos sonhos: HENRY FONDA. Mas, Fonda não aceitou a princípio. Foi necessário que Leone falasse com ele diretamente usando o seguinte argumento: 


Imagine uma cena em que se mostre o pistoleiro da cintura para baixo. Ele saca sua arma, aponta para uma criança e atira! A camera vai subindo até seu rosto e o que vemos é... o Henry Fonda!!!

 

O argumento era bom, mas ainda assim Fonda hesitou. Mas ligou para seu amigo Eli Wallach, questionando como era trabalhar com Leone. Eli respondeu que ele deveria aceitar e se preparar para se divertir muito. E ele aceitou...


ELI WALLACH


Com orçamento garantido e seu ator dos sonhos, Leone contratou Bernardo Bertolucci e Dario Argento para ajudá-lo a elaborar um tratamento cinematográfico. Para isto passaram o ano de 1967 assistindo e discutindo inúmeros clássicos americanos do faroeste, como "Matar ou Morrer"; "Rastros de Ódio"; "O Cavalo de Ferro"; "Os Comancheiros" e outros. 


Os três concluíram a história. Depois, Sergio Leone e Sergio Donati escreveram o roteiro e o resultado foi "ERA UMA VEZ NO OESTE"... O que não sabiam ainda era que o filme daria origem a uma nova trilogia.


PRIMEIRO FILME: ERA UMA VEZ NO OESTE (1968)




Este filme marca uma mudança no estilo de Leone. A trilogia dos dólares tinha como marca a excentricidade e uma certa animação, era quase uma paródia que celebrava e ironizava os ícones do Velho Oeste. Já "Era uma Vez..." adotou um ritmo mais lento e sombrio (exatamente o que me fez não gostar deste filme), mesmo os personagens mudaram. Eles já não são tão definidos, eles tentam mudar durante a história e isto se estende aos outros dois filmes da nova trilogia. 


Assim, o filme tem cenas longas e lentas, com pouco diálogo e poucos acontecimentos, que são interrompidos por violência breve e repentina. O papel do personagem apelidado "Harmonica" foi oferecido a Clint Eastwood, que recusou, talvez pelo longo tempo que o ator ficou na pós-produção para dublar os filmes da trilogia dos dólares. Em consequência, o papel foi parar nas mãos de Charles Bronson. 




O filme gira em torno de uma vingança. Harmonica tem contas a ajustar com o assassino de aluguel Frank (apenas 'Frank') , interpretado por Henry Fonda, e, para levar a cabo sua vingança, ajuda a viúva Jill McBain (Claudia Cardinale) a enfrentar os interesses comerciais do magnata ferroviário Sr. Morton. 


Logo no início da história temos uma amostra de como será o filme completo. Vemos uma estação ferroviária madorrenta e quase deserta, onde três homens esperam a chegada do trem.  A  cena é sonolenta e os três ali parados mostram isto claramente. Depois descobrimos que eles estavam esperando a chegada de um determinado passageiro: Harmonica. A sonolência da cena termina repentinamente com Harmonica matando os três...




O que talvez não saiba é que Sergio Leone queria que aqueles três homens fossem interpretados por Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef. A morte dos três no filme, simbolizaria o fim definitivo da chamada 'trilogia dos dólares'. Seu plano não deu certo porque Eastwood não aceitou e Cleef também não pôde aceitar por outros compromissos. Somente Wallach estava disposto a fazer...


Outro detalhe sobre o elenco foi a contratação de Cláudia Cardinale. Em uma entrevista posterior, Leone declarou que a escalou em parte por ela ser italiana e por isso poderiam conseguir benefícios fiscais... Confesso que não é uma atriz que realmente aprecio. Não lembro de nada relevante com ela. 




Embora não seja um filme de que eu pessoalmente goste, um ponto é inegável: sua trilha sonora é fantástica. O ponto forte da trilogia dos dólares e deste filme é sem dúvida a música-tema composta por Ennio Morricone. Curiosamente, Leone pediu a Morricone que produzisse a música antes do início das filmagens e a usou como música de fundo para os atores no set. Outra curiosidade é que, cada personagem principal tem sua própria música. 


Como falamos do set de filmagem, quando Henry Fonda apareceu para filmar, ele usava lentes de contato marrons e um bigode no estilo guidão. Ele acreditava que combinaria mais com o personagem malvado que interpretaria e ajudaria o público a aceitar este 'novo' Fonda vilão. Leone reagiu imediatamente mandando-o tirar as lentes e fazer a barba, pois não queria um vilão clichê...




Últimas curiosidades: 


  • A versão original do diretor foi lançada em 21 de dezembro de 1968 nos cinemas europeus e tinha 165 minutos de duração. Foi um sucesso de bilheteria. Quando foi lançado nos EUA, o filme foi reeditado e ficou com apenas 140 minutos e, ironicamente, foi um fracasso de bilheteria…
  • Dissemos antes que Eastwood gastou algum tempo dublando os filmes em que participou com Leone (cerca de 2 anos, salvo engano). Isto foi necessário porque os filmes eram gravados sem som! Todo o som era acrescentado na pós-produção, o que incluía o processo de dublagem (alguns dramas chineses ainda são feitos assim). 


Faremos uma nova postagem com os outros dois filmes da nova trilogia. Por enquanto, deixamos vocês com a música-tema composta por Ennio Morricone (uma obra-prima). 









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