ANIMEMÓRIA | Angel's Egg: Sonho & Simbolismo Em Gestação No Surreal



Nome original: 天使のたまご (Tenshi no Tamago)
Gênero: Fantasia Científica
Criado por Mamoru Oshii e Yoshitaka Amano
Animação original em vídeo
Direção: Mamoru Oshii
Produção: Hiroshi Hasegawa, Masao Kobayashi, Kōki Miura e Yutaka Wada
Roteiro: Mamoru Oshii
Música: Yoshihiro Kanno
Estúdio: Studio Deen
Data de lançamento: 15 de dezembro de 1985
Duração:  71 minutos

Sinopse:

Em um mundo desolado e misterioso, uma jovem guarda com devoção um ovo de origem desconhecida. Em sua jornada, encontra um garoto que carrega uma cruz e que começa a questionar a natureza de sua fé e de sua missão.



Inomináveis Saudações a todas e todos vós! 

Distribuído no Brasil pela Sato Company (porém, ficou em exibição em poucos cinemas e, não, em todo o Brasil como anunciado por tal Grupo), Angel's Egg é uma Viagem Mística hipnótica, surreal, filosófica, melancólica e enigmática pelo Simbolismo de sua própria natureza. Lançado no país aos 20 de novembro de 2025 com cópias remasterizadas em 4K, trata-se de uma obra-prima da Fantasia Científica, um ramo de criações que em seus contextos misturam-se elementos de Fantasia e Ficção Científica. Seus setenta e um minutos, os quais não poderiam nunca ter um acréscimo ou diminuição na metragem como um todo, apresentam início, meio, fim e continuidade. Esta última para quem, como eu, navegou para dentro da história com uma imersão absoluta, pois eu não sabia se estava sonhando ou assistindo um filme de animação em uma sala de cinema desde o início da obra. As impressões que ficaram em mim, de tudo o que assisti, é a de um grande sonho recheado de múltiplos significados.



Um grande sonho sempre tem mensagens direcionadas para cada tipo de pessoa. Múltiplos significados, geralmente, são percebidos por um número limitado de pessoas. Se eu cair na vibração dos Nerdolas, poderia aqui dizer que apenas pessoas incrivelmente capacitadas intelectualmente poderiam compreender este filme. Indo mais longe ainda, destilando infindável desnecessária arrogância, poderia também diminuir as pessoas que nada compreenderam acerca do filme do alto de um trono de sabedoria (esta eu estou bem longe de alcançar nesta existência, talvez na próxima ou em alguma mais adiante). As palavras nada significam, os preconceitos não se justificam e as críticas a quem, simplesmente, considera Angel's Egg “uma merda” (eu ouvi isto de alguém que sentou ao meu lado e comentou com a namorada ao final do filme isto), seria uma perda significativa de tempo da minha parte nesta Resenha. Eu não sou melhor do que você que não entendeu este filme ou qualquer outra obra complexa realizada pela criatividade artística humana. Eu não estou em um patamar evolutivo elevado para me sentir no direito de lhe criticar e a qualquer outra pessoa que não tenha compreendido este filme. Apenas utilizo de minha sincera observação como Resenhista para dizer-lhes isto, tenham vocês entendido ou não a obra: se a capacidade de sonhar e de interpretar os seus sonhos faz parte do que lhe constitui como criatura pensante, Angel's Egg pode ser satisfatoriamente compreendido pela sua mente, pelo seu intelecto e pelo seu coração.



A compreensão pela mente de uma obra de arte exige um modo de esvaziar-se de conceitos anteriores e engessados os pensamentos acerca de como a mesma deve ser. A compreensão pelo intelecto de uma obra de arte não exige um Diploma de Doutorado em Linguagem Cinematográfica ou Pós-Doutorado em Artes Visuais. A compreensão pelo coração de uma obra de arte não exige forçar sentimentos ou emoções, positivas ou negativas, em relação à mesma. Quando um filme filosoficamente profundo como Angel's Egg lhe atrai tanto que assisti-lo se torna uma primordial necessidade, não existem modelos de compreensão e informação disponíveis como manuais direcionando a análises e conclusões precisas. A bagagem cultural deve ser deixada de lado no canto da sala das questões artísticas vistas pelo prisma precipitado e inautêntico da pressa em querer chegar a qualquer tipo de resultado. Acima, dei apenas sugestões possíveis a quem quiser compreender cada dimensão das peculiaridades de uma criação artística e não é um roteiro a ser seguido. Você mesmo(a), sem a necessidade de grandiosos recursos acadêmicos, tem o dever íntimo da busca pelo entendimento que melhor lhe caiba. A meu ver, este era o objetivo dos idealizadores deste filme ao concretizá-lo da forma que ele é.



A intenção bem clara de Mamoru Oshii e Yoshitaka Amano foi a de deixar ao cargo do espectador a interpretação do que é exibido de uma maneira onírica que discursa profunda e especificamente com a alma. Eles alcançaram um nível de sonho soberanamente único, estado totalmente inserido no quanto imagens e sons se transformam como as ondas inconstantes de surreais mares. A linguagem precisa para resenhar Angel’s Egg até carece se termos mais compreensíveis para a maioria dos meus poucos leitores, vocês que estão lendo este texto. A própria experiência do em si no caso da apreciação estética, sensorial e espiritual desta obra, da minha parte, elabora no decorrer destas palavras um transbordamento de conceitos e termos de uma filosofia pessoal minha, a qual denomino de Filosofia Inominável. A quantidade expressiva, intensiva e específica de observações interiores que o filme me causou, aliado ao encontro de minhas mais íntimas existenciais noções acerca do Surreal, acredito me levar a sonhar que estou escrevendo tanto quanto sonhei que poderia estar dentro de um sonho enquanto imergia nele no interior de uma sala de cinema, como escrito parágrafos acima. Isto torna esta Resenha uma espécie de diálogo direto com o sentido específico da arte que Oshii e Amano constituíram, guiando toda e qualquer interpretação para uma identidade própria. Em um termo contemporâneo que classifica algo extraordinário no campo artístico, eu diria que é ABSOLUTE CINEMA cada quadro, cada frame e cada linha do roteiro visual posto em atividade durante a duração da película. Com poucos diálogos e dois personagens inomináveis, a base central da alma do filme se conecta a esta pergunta que ambos fazem um ao outro: Quem é você?.



Quem é você? : a mais sincera das perguntas. Quem é você? : a mais direta das perguntas. Quem é você? : a única pergunta possível dentro dos limites da realidade. Quem é você? : a única pergunta plausível no largo composto espelho do Onírico. Quem é você? : a única pergunta lógica ao longo dos reflexos no espelho do Surreal. Quem é você? : a pergunta da menina que carrega o ovo pode ser também uma pergunta feita ao espectador. Quem é você? : a pergunta feita pelo misterioso homem que encontra a garota carregando o ovo também pode ser uma pergunta direta feita para o espectador. Quem é você? : no meio do mundo destroçado, onde homens perseguem sombras de peixes gigantes, é uma pergunta coerente. Quem é você? : no meio de momentos entre as ruínas de um mundo que foi destruído, mundo desolado e caindo cada vez mais em um Abismo, é uma pergunta honesta. Quem é você? : no meio de um mundo, o qual não é explicado no filme o que ele foi e nem o que será, tal pergunta torna-se, definitivamente, a única forma de compreensão da existência de uma situação onde reinam apenas trevas, silêncio e desolação. Quem é você? : a única pergunta encerrada no meio do Caos Objetivo de uma história que poderia ter muitos outros títulos. Quem é você? : a única pergunta cravada no Caos Subjetivo de uma história que poderia ser todas as demais histórias. Quem é você? : a única pergunta expressa pelo Kaos, em Seu Existir Automanifestado, em ambos os personagens que parecem não ter um destino dourado ou uma melhor estrada para seguir. Quem é você? : a mais insistente das perguntas. Quem é você? : a mais incessante das perguntas. Quem é você? : a mais gestante pergunta. 



As gestações de diversas indagações compõem o todo do Surrealismo que o silêncio, as imagens e os poucos diálogos sugerem. Um pássaro gigante preso em um ovo é mostrado e comentado pelo homem misterioso. A menina, então, faz uma outra pergunta que ecoa em mim como um trovão: com o que os pássaros sonham?. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que não pode ser vista como a simples curiosidade de uma criança. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que aponta quantas batidas de asas podem ser dadas nas indagações dentro de um mundo estraçalhado. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que sonha com o próprio sonho vívido proporcionado pela observação de um filme de múltiplas interpretativas camadas. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que também pode ser vista como uma indagação propondo saber com o que os espectadores sonham. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que sonda a perspectiva de um vôo sobre as dúvidas que também pairam nos sentidos de cada mensagem que o filme pretende transmitir. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta voando para horizontes de possibilidades significativas que encaminham-se na direção de nenhuma resposta direta ou desnecessária. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta diante de um ninho de muitos ovos que poderão ser chocados em cada espectador que tentar compreende o filme como ele é, sem as interferências de Críticos, de YouTubers ou de Blogueiros, como eu, que escrevem Resenhas. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta no trópico das necessidades nunca exaustivas de sempre buscar o absolutismo das crescentes indagações dentro de uma história que evoca cada necessidade interpretativa individual. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta que voa na direção daquilo que nenhuma humana palavra jamais alcançará, tanto quanto a exata compreensão do que Angel’s Egg está a narrar. Com o que os pássaros sonham? : uma pergunta, enfim, que apenas os pássaros saberiam responder.

Mas, nós falamos a linguagem dos pássaros para podermos saber das respostas deles e sonhamos as mesmas coisas com as quais eles sonham?



Qualquer resposta minha seria fajuta. Qualquer resposta minha seria insana. Qualquer resposta minha seria ridícula. Qualquer resposta minha seria risível. Qualquer resposta minha seria a resposta errada exatamente porque não sou o detentor de uma definitiva compreensão do que signifique o que eu assisti. Eu aqui apenas falei de como a minha cognição construiu uma noção individual do quanto a história me deu. Se você souber sonhar no Sonhar, um templo de revelações acerca do que é gestado no Surreal desta obra-prima abrirá em ti todas as portas e janelas perceptivas mais corretas. O Sonho é uma chave interpretativa para o enredo de observações acerca de Angel’s Egg, seja por meio da sensação de envolvimento total com a linguagem visual ou pelas vias do que o enredo entrega por alto, sem entrar em pormenores. O Sonho, em meio a imagens e sons (remeto uma vez mais a minha análise do filme para estas duas significativas particularidades dele), ordena a ordem dos fatores da narrativa. O Sonho, amigável para quem se deixa ser por ele abraçado e envolvido como em um grande tecido referencial, constrói a roupagem de toda e qualquer Resenha escrita sobre o filme. O Sonho resultou nesta Resenha, aqui está o que o Onírico atuando desde o primeiro instante na obra, espontaneamente, me apresentou; e resultou e resultará em uma completamente diferente para outra pessoa que escreveu uma. O Cinema é do Sonhar e os sonhos mais surreais são infindáveis, possíveis no elemento mais possante e importante que nós, nascidos da gema de uma Civilização de seres pensantes, podemos ter: sermos pais e mães das histórias gestadas em nossas mentes, corações e almas.

Esta relíquia do Cinema Japonês, assim como do Cinema Mundial, necessita ser assistida com um ar de contemplação e respeito. O que escrevo aqui ao final é apenas a apaixonada afirmação de um Otaku Fedido, sem relevância alguma no mundo. No entanto, contemplo e respeito a tudo que toca no mais profundo da minha alma porque, assim como o homem misterioso que queria saber o que estava dentro do ovo carregado pela menina, eu quero saber o que será chocado em mim por todos os ovos que a Arte tem a pôr ainda no mundo. Ovos que chegarem a mim portando toda possibilidade e impossibilidade, imanência e transcendência, contingência e necessidade.

Preenchido ou vazio um ovo sempre contém tudo que é em si pronto para dar se a conhecer no mundo fenomênico. Tal como neste filme que é um ovo cuja gema contém as asas de tudo que voa muito além das materiais palavras.

Saudações Inomináveis a todas e todos vós!


Mamoru Oshii
Yoshitaka Amano

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