FALANDO DE CINEMA | Haru tono tabi
“Durante os bons tempos, todo mundo é bom. Durante os maus momentos, todos são ruins. Bem, é assim que funciona. Certo?”
Tadao
👨🏾💻 Dados Técnicos
Japão
2010
Cor
134 min.
Título em kanji: 春との旅
Títulos internacionais: Haru's Journey, Travels With Haru e Viajando Com Haru
Direção: Masahiro Kobayashi
Roteiro: Masahiro Kobayashi
Produção: Muneyuki Kii e Naoko Kobayashi
Elenco: Tatsuya Nakadai (Tadao), Eri Tokunaga (Haru), Hideji Otaki (Shigeo Kanamoto), Kin Sugai (Keiko Kanamoto), Kaoru Kobayashi (Patrão do Bar), Yuko Tanaka (Aiko Shimizu), Chikage Awashima (Shigeko Ichikawa), Akira Emoto (Michio Nakai), Jun Miho (Akiko Nakai), Naho Toda (Tobuko Tsuda) e Teruyuki Kagawa (Shinichi Tsuda)
Cinematografia: Kenji Takama
Distribuição: Asmik Ace
Data de lançamento: 22 de maio de 2010 (Japão)
Idioma: Japonês
✍🏾 Sinopse
Na cidade de Mashike, em Hokkaido, onde a principal atividade da região é a pesca de arenque, vivem, numa humilde casa, Tadao, um velho pescador, e sua neta Haru. Desde que perdera sua mãe, Haru tem trabalhado como copeira de uma escola da região para sustentar seu avô. Certo dia, porém, ela é surpreendida com o fechamento da escola. Para não ter que abandonar seu avô, que tem problemas na perna, Haru inicia uma jornada em busca de seus irmãos. Ela espera que algum deles possa acolhê-los.
⚖️ Créditos da Sinopse: Cine Asian Space
Inomináveis Saudações a todos vós, Povo do Memória!
Um experimento de Resenha diferente venho propor hoje ao focar este texto em relação a este tão humano filme. Humano em uma rota de profundíssima dimensão por meio de sentidos e sentimentos dolorosíssimos, que fazem abrir a mente e o coração para verdades mais dolorosas ainda. Quero falar, sem técnica de frio Resenhista ou a distância adotada por muitos Críticos Profissionais deste filme que não sai de mim desde que o assisti na última segunda-feira do mês de novembro deste ano. Quero falar aqui baseado nas vozes do meu coração, nas feridas e nas rachaduras que trago em mim, nas doses de cinzentas cargas de funerais pulsantes que não me fazem mais ser um iludido entre tantos iludidos. Filmes de verdade (e quando sempre utilizo esta frase em um texto meu me refiro a filmes com Alma e, não, produções voltadas apenas para o lucro dos estúdios e as vendas de pipocas e refrigerantes nos cinemas) são aqueles que nos dão a muito clara visão de muitas coisas que tentamos negar, fingimos não saber e lutamos contra para não aceitar. Haru tono tabi é parte da plêiade de filmes desta raríssima natureza atualmente entre nós.
Então, percebam que aqui há um texto muitíssimo pessoal, a começar pelo exemplo que dou das chamadas "famílias felizes". Nós costumamos adotar todo tipo de maravilhamento quando nos voltamos para observar nossas próprias prósperas famílias, prósperas no sentido da felicidade, da fartura, da amizade e da união imprescindíveis para a harmonia consanguínea. Era uma vez, portanto, tantas e tantas famílias felizes, unidas pela sinceridade, pelo afeto, pelo calor, pela busca em comum de valores e identificações nas pequenas e nas grandes visões de mundo. Era uma vez cada família feliz do nosso mundo, perfeitas hordas de gente sorridente, próxima, generosa, amável e íntimas umas das outras. Era uma vez, sim, cada uma das famílias que até hoje demonstram para todas as demais famílias felizes da Terra possuir todos os requisitos mais nobres para o atestado da felicidade que tanto preservam. Pessoas felizes em múltiplos parques de diversões emocionais e festas de aniversário, Natais, Anos-Novos e afins. Porém, parques de diversões sempre hão de ser fechados; aniversários deixarão de ser comemorados; Natais nenhuma significação terão um dia; Anos-Novos se tornarão repetidamente idênticos a todos os Anos-Velhos. Chega o dia do fim de toda a felicidade dentro de uma parte de toda grande família feliz.
Quando as luzes da felicidade apagam-se para uma parte apenas de famílias felizes, a realidade inteira do que significava cada relação no interior dela se revela. Basta que uma pequena parte fique fragilizada, apequenada, atingida com toda a fúria possível pela doença, pelo luto ou pela falta de dinheiro. Muita gente boa e generosa do mesmo sangue nos tempos de bonança para essa parte fragilizada de uma família, se afasta da mesma como um todo. Tudo, a partir deste momento, fica evidentemente claro para a parte daquela grande festiva e amorosa família quando a queda atinge-lhe: a felicidade estava apenas na medida em que tais pessoas em dificuldades eram capazes anteriormente de compartilhar benesses, sem se tornarem estorvos e incômodos. A amizade toda no passado termina. A união vista nas festas se pulveriza. A harmonia que se assegurava apenas dos instantes de comemorações é extinta. Tudo era hipocrisia mascarada por interesses específicos, estes variando de caso para caso, de família feliz para família feliz. No momento mais abissal e intranquilo, quando se percebe que todos abandonaram aquele convívio maravilhoso e lindo nos momentos bons, o coração é destroçado. E os poucos que ainda permanecem nos momentos ruins podem até ajudar, mas esta ajuda é forçada e muitas vezes um estorvo do qual eles querem logo se ver livre. Assim são certos Seres Humanos, capazes de se afastarem daqueles que através dos lábios juravam amar, proteger e apoiar quando os mesmos se encontravam em boa situação. Assim ocorre quando em areia movediça caminham os parentes que perdem a capacidade de atuar sorridentes e felicíssimos nas vias da existência segura, confortável e sem qualquer tipo de grave problema. Assim funciona quando estruturas familiares são apenas construções feitas com água e poeira.
Laços familiares não significam merda alguma, até mesmo em famílias onde existe autêntica sinceridade entre os membros. Sei que para alguns de vocês é muito difícil admitir que toda sincera pessoa de seu próprio sangue possa um dia se afastar quando em suas trajetórias os fracassos excederem o nível das vitórias. Essa possibilidade pode ser real e o choque, a decepção, a surpresa e a tristeza são assassinos. É tudo maravilhoso quando tudo está maravilhoso. É tudo repugnante quando as maravilhas se deterioram. A fria mecânica deste esquema de matemática certeza é a mais dura das lições que podem ser aprendidas. Não lhes desejo mal e nem aos mais próximos em convívio dentro de sua família, seja esta perfeita aos seus olhos ou imperfeita para os seus corações; entretanto, se um dia a doença, o luto ou a falta de dinheiro residirem em suas casas, procurem contar nos dedos quantos do seu sangue irão lhes ajudar. Alguns de vocês lendo este texto podem até ter oferecido muita ajuda aos seus familiares e não-familiares, recebendo em troca o desprezo, a desconsideração e as portas fechadas quando chegou o momento de pedir ajuda. Esta realidade não dá para apenas suportar ou considerar como apenas algo passageiro ou um mal-entendido qualquer. O peso dela tortura. A presença dela agrade. A noção dela deprime.
Haru tono tabi é sobre tudo que acima descrevi sem nenhuma intenção de fazer um barato sensacionalismo acerca de fatos que já ocorreram, ocorrem e ocorrerão em muitas famílias. Tudo neste filme, do Diretor Masahiro Kobayashi aos Atores e Atrizes; dos cenários aos diálogos; das vestimentas ao mobiliário; dos sons ao silêncio, conta exatamente o quanto de ingratidão, injustiça e rejeição podem afetar aqueles que são atraídos para o centro de terríveis e desesperadoras tempestades, sendo cada uma destas sendo de naturezas diversas. A jornada deste filme colhe diversas concepções e ações que mostram o quanto é horrível não ter com quem contar. Haru e seu avô, nas peles dos excepcionalíssimos Eri Tokunaga e Tatsuya Nakadai, vão de decepção em decepção, de fracasso em fracasso, na busca pelo acolhimento de um familiar no mais difícil momento pelo qual estavam passando. Deixei as lágrimas caírem a todo momento, senti em mim toda cena e todo o sofrimento dos dois, toda descoberta no bater de porta em porta de familiares a frase "não tenho como lhes ajudar" escritas nas faces deles. A dureza de toda esta jornada é fatalíssima. A crueza de toda esta marcha é insana. A certeza de todo este filme está na demonstração de todas as grandes mentiras sobre o que significam ou não algumas ou todas as famílias. Amarguíssima e importantíssima experiência cinematográfica pondo nos eixos da roda da humana realidade o que nunca vemos quando sorrimos e gargalhamos juntos com os nossos familiares.
Não há um final feliz aqui. Só há uma chance de final feliz aqui. Porém, um final feliz neste filme não seria algo que o tornasse relevante para qualquer época. Uma obra-prima de doze anos de idade apenas e que eternamente será atual porque este nunca foi, não é e nunca será um mundo de permanentes felicidades ou senhor de uma Absoluta Perfeição. Nenhum de nós chega a ser feliz aqui na Terra. Quem pensa que é feliz apenas engana a si mesmo. Eis também o outro tema desta obra que se apresenta como um filme honesto entre tantos filmes desonestos realizados nesta primeira metade do Século 21. Uma honestidade carregada de tristeza, depressão e desestruturação.
Um filme que guardarei até o fim da minha existência inominavelmente honesta e silenciosa em meu Ser, coração e alma.
Saudações Inomináveis a todos vós, Povo do Memória!





















































































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