Animação em Foco | POLICIA DESMONTADA ( Posse Impossible) - 1977
Pouco lembrado atualmente quando comparado a clássicos como Os Flintstones, Scooby-Doo, Manda-Chuva ou Zé Colmeia, o desenho conquistou seu espaço entre aqueles programas que fazem parte da memória afetiva de quem viveu a televisão das décadas passadas.
Originalmente chamado de Posse Impossible, o desenho foi produzido pela Hanna-Barbera em 1977 e apresentado como um dos segmentos do programa antológico CB Bears, exibido pela NBC entre setembro e dezembro daquele ano. A atração reunia seis segmentos diferentes, cada um inspirado ou parodiando gêneros e produções populares da televisão e do cinema. Posse Impossible era justamente a incursão da Hanna-Barbera pelo universo do "velho oeste".
E o resultado não poderia ser mais típico da casa: personagens caricatos, perseguições, planos que davam errado e uma boa dose de humor físico.
Ao lado do xerife estão Valentino (Big Duke), Vareta (Stick) e Chorão (Blubber). Juntos, eles formam uma das patrulhas mais incompetentes — e curiosamente eficientes — do Velho Oeste.
A missão é simples: perseguir bandidos, proteger a cidade e colocar os fora-da-lei atrás das grades.
O problema é que, no universo de Polícia Desmontada, quase nada acontece de maneira simples.
As perseguições frequentemente terminam em confusão, os planos nem sempre saem como esperado e os próprios integrantes da patrulha parecem capazes de transformar uma ocorrência relativamente comum em um completo desastre. Ainda assim, no final, os criminosos quase sempre acabam presos — muitas vezes graças mais à trapalhada dos heróis do que propriamente à competência policial.
É justamente essa fórmula que dava ao desenho seu charme.
A equipe apareceu primeiro em Hong Kong Phooey, na produção de 1974. No episódio “Comedy Cowboys”, exibido em dezembro daquele ano, os personagens Posse Impossible aparecem em uma aventura ambientada no Velho Oeste. A participação funcionou, na prática, como uma espécie de piloto para uma possível nova atração.
Três anos depois, a Hanna-Barbera aproveitou a ideia e transformou a equipe em um segmento regular de CB Bears.
Houve algumas mudanças. A cidade, por exemplo, passou a ser Saddlesore, enquanto o xerife também foi substituído. Big Duke, Stick e Blubber, entretanto, permaneceram como integrantes da equipe.
Assim nasceu oficialmente Posse Impossible — que chegaria ao público brasileiro com o curioso e muito mais memorável título de Polícia Desmontada.
O xerife sério, os bandidos perigosos, as perseguições a cavalo, os saloons, os roubos, os duelos e até os estereótipos dos antigos filmes de cowboy eram reinterpretados pela linguagem irreverente da Hanna-Barbera.
Um dos exemplos mais evidentes está em Big Duke, personagem concebido como uma caricatura de John Wayne, um dos maiores símbolos do cinema western americano. Na versão original, Daws Butler interpretava Big Duke utilizando uma voz inspirada no famoso ator.
Essa paródia ajudava a estabelecer imediatamente o tom da produção: Polícia Desmontada não pretendia apresentar um Velho Oeste realista. Era uma brincadeira com tudo aquilo que o público já conhecia dos filmes de cowboy.
Os personagens de Polícia Desmontada
Xerife Tiro Certo
O Xerife Tiro Certo, conhecido originalmente como Sheriff of Saddlesore, era o responsável por comandar a patrulha.
Apesar da autoridade do cargo, sua equipe estava longe de representar o modelo de eficiência que se esperaria de uma força policial.
Valentino
Valentino, o Big Duke da versão original, era o baixinho valente e cheio de pose da equipe.
Sua caracterização fazia referência direta ao arquétipo do cowboy durão e, principalmente, à figura cinematográfica de John Wayne.
Na dublagem brasileira, ganhou o nome de Valentino e se tornou um dos personagens mais característicos da série.
Vareta
Vareta, originalmente Stick, representava o típico caipira magricela e atrapalhado.
Sua aparência e comportamento contribuíam para reforçar a caricatura do Velho Oeste rural, enquanto suas trapalhadas ajudavam a movimentar as situações cômicas.
Chorão
Já Chorão, o Blubber original, era o grandalhão emotivo da equipe.
Seu comportamento choroso criava um contraste divertido com a imagem tradicional do cowboy durão e completava o trio de ajudantes do Xerife Tiro Certo.
A dublagem brasileira teve papel importante na adaptação desses personagens para o público nacional. Registros especializados apontam a participação do estúdio Herbert Richers e identificam nomes como Felipe Wagner, Nilton Valério, Silas Martins e Armando Casella no elenco brasileiro.
Apenas 13 aventuras
Apesar de ter conquistado espaço na memória de alguns espectadores, Polícia Desmontada teve uma trajetória bastante curta.
Foram 13 segmentos, exibidos originalmente entre 10 de setembro e 3 de dezembro de 1977, dentro de CB Bears.
Entre os títulos das aventuras estão:
Big Duke and Li'l Lil
Trouble at Ghostarado
The Not So Great Train Robbery
The Alabama Brahma Bull
The Crunch Bunch Crashout
One of Our Rivers Is Missing
The Sneakiest Rustler in the West
Bad Medicine
Busting Boomerino
Roger the Dodger
Riverboat Sam, the Gambling Man
The Invisible Kid
Calamity John
Cada segmento seguia essencialmente a mesma proposta: um novo problema surgia em Saddlesore, o xerife e sua equipe partiam para resolver a situação e, depois de muita confusão, o criminoso acabava derrotado.
É uma estrutura simples, mas que funcionava perfeitamente para episódios curtos e recheados de gags.
Em vez de movimentar constantemente todos os elementos de uma cena, os animadores reutilizavam poses, ciclos de movimento, cenários e determinadas sequências.
Hoje, esse estilo pode parecer limitado quando comparado à animação contemporânea. Para quem cresceu assistindo televisão naquela época, entretanto, ele se tornou parte inseparável da experiência.
Em Polícia Desmontada, esse recurso combinava perfeitamente com a proposta do desenho. Como os episódios eram curtos e dependiam muito de perseguições, expressões exageradas e situações cômicas, o ritmo conseguia permanecer acelerado mesmo com uma animação relativamente econômica.
A trilha sonora também contribuía para esse clima. A música de Hoyt Curtin, compositor recorrente nas produções da Hanna-Barbera, ajudava a estabelecer o ritmo das perseguições e das situações cômicas.
Polícia Desmontada no Brasil
Para o público brasileiro, entretanto, existe um elemento adicional que ajuda a explicar por que o desenho permanece tão presente na memória de alguns fãs: a dublagem nacional.
O título Posse Impossible ganhou por aqui o muito mais divertido Polícia Desmontada.
Xerife Tiro Certo, Valentino, Vareta e Chorão passaram a fazer parte do vocabulário de uma geração que assistia aos desenhos dublados em português.
A adaptação brasileira, realizada pela Herbert Richers, contribuiu para conferir identidade própria aos personagens.
E esse é um dos grandes motivos pelos quais determinados desenhos antigos continuam vivos na memória: não lembramos apenas das histórias, mas também das vozes, dos nomes adaptados, das músicas e das expressões que ouvimos repetidamente durante a infância.
Não era necessário conhecer uma grande mitologia, acompanhar dezenas de temporadas ou entender uma história complexa.
Bastavam alguns minutos.
Um xerife.
Três ajudantes completamente atrapalhados.
Um bandido.
Uma perseguição.
Muitas confusões.
E, no final, os criminosos atrás das grades.
Essa simplicidade tinha enorme poder de entretenimento.
Era uma televisão feita para divertir, sem exigir muito do espectador. E talvez seja justamente por isso que, décadas depois, uma simples lembrança do Xerife Tiro Certo, Valentino, Vareta e Chorão seja suficiente para transportar muita gente diretamente para a sala de casa, diante de uma televisão de tubo, em uma manhã ou tarde de desenhos animados.
Polícia Desmontada nunca alcançou a popularidade de Scooby-Doo, Os Flintstones, Os Jetsons ou Zé Colmeia. Seu tempo de vida foi curto e sua produção se resumiu a apenas 13 segmentos.
Ainda assim, isso não diminui sua importância como peça da história da animação televisiva.
O desenho representa uma fase muito particular da Hanna-Barbera: aquela em que o estúdio produzia inúmeras atrações, experimentava diferentes formatos e transformava praticamente qualquer gênero popular em uma oportunidade para fazer comédia.
Posse Impossible pegou o western, um dos gêneros mais populares do cinema americano, e o colocou nas mãos de uma equipe de heróis tão incompetente quanto simpática.
O resultado foi Polícia Desmontada: um pequeno, divertido e curioso capítulo da história dos desenhos animados dos anos 1970.
E talvez esse seja justamente o maior encanto dessas produções esquecidas.
Elas não precisam ter sido grandes sucessos para terem significado alguma coisa.
Às vezes, basta terem passado algumas vezes diante dos nossos olhos durante a infância.
Porque, quando o assunto é memória afetiva, até uma polícia desmontada pode permanecer de pé por décadas.
Ficha técnica de Polícia Desmontada
E você, lembrava de Polícia Desmontada?
Se você acompanhou Polícia Desmontada na televisão brasileira, provavelmente também guarda alguma lembrança especial dessa pequena produção da Hanna-Barbera.
Você se lembra do Xerife Tiro Certo, Valentino, Vareta e Chorão? Assistia ao desenho na época de sua exibição original ou descobriu a turma posteriormente nas reprises?
Conte nos comentários do Memória Magazine. Afinal, relembrar esses desenhos também é uma maneira de preservar um pouco da televisão que fez parte da nossa infância.
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