Na Estante | REVISTA SET: O CINEMA EM PAPEL COUCHÊ (1987 – 2010)
Nos anos 1990, em especial, a SET viveu seu auge criativo e editorial. A diagramação pop, cheia de cores, recortes e títulos espirituosos, dialogava com a MTV, com a cultura das locadoras e com um público que estava formando seu repertório audiovisual. Seções lendárias como Radar e Takes misturavam informação, ironia e opinião sem o pudor da falsa neutralidade. A SET cobria blockbusters de Hollywood, cinema europeu, produções independentes e cinema trash com o mesmo entusiasmo — algo raro até hoje. Seu diferencial estava na curadoria: alguém já tinha visto tudo antes de você e estava disposto a dizer, com humor e convicção, o que realmente valia seu tempo.
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Mais do que uma revista sobre estreias, a SET foi um verdadeiro manual de sobrevivência cultural. A seção Cinema em Casa tornou-se o guia definitivo das noites de sexta-feira nas locadoras de VHS — e depois de DVD. Em um mundo sem streaming, ela ditava o que alugar, o que evitar e o que descobrir por acaso nas prateleiras empoeiradas. As edições especiais, como “Os 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos”, iam muito além de listas: eram eventos culturais que geravam debates acalorados em mesas de bar, cartas de leitores furiosas e discussões intermináveis nos fóruns ainda embrionários da internet brasileira.
Outro pilar fundamental da SET foi sua presença internacional. Em uma era de escassez de informação, ter correspondentes diretos de Hollywood — como Ana Maria Bahiana em sua fase de ouro — significava acesso a bastidores, entrevistas exclusivas e reportagens de set que nenhuma outra publicação nacional oferecia. Dossiês detalhados, como o da produção caótica de Titanic, mostravam que cinema também era indústria, conflito, ego e risco financeiro. Ao mesmo tempo, a revista nunca abandonou o cinema nacional: capas emblemáticas, como a dedicada a Cidade de Deus, ajudaram a consolidar a percepção de que o Brasil vivia um novo e relevante momento cinematográfico.
O fim da SET, em 2010, foi silencioso e melancólico — quase incompatível com o barulho cultural que ela havia produzido por mais de duas décadas. Seu encerramento marcou não apenas o fim de uma revista, mas o fechamento de um ciclo: o do jornalismo cultural impresso como formador de gosto, referência e identidade. Hoje, em meio à abundância de opiniões instantâneas, algoritmos e “reviews” de 30 segundos, o legado da SET permanece como saudade e parâmetro. Ela foi mais do que uma publicação sobre cinema; foi a curadora oficial do gosto cinematográfico de uma geração — e talvez a última a fazê-lo com tanto estilo, humor e convicção.
A nostalgia que a SET evoca é um lembrete poderoso da paixão e da magia que o cinema trouxe às nossas vidas ao longo dos anos. Cada página virada e cada crítica lida foram momentos que nos conectaram a histórias e emoções inesquecíveis. Ao refletirmos sobre a trajetória dessa revista, sentimos não apenas a saudade de um tempo em que o cinema era um evento aguardado com ansiedade, mas também uma profunda gratidão por tudo o que ela representou. A SET não foi apenas uma publicação; foi um verdadeiro portal para o universo cinematográfico que, até hoje, continua a inspirar novas gerações de cinéfilos.










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