In Memoriam | Ziraldo (1932-2024)
Venho, mais uma vez, escrever um post por uma razão triste, o falecimento do grande cartunista Ziraldo, em 6 de abril, aos 91 anos, o Picasso brasileiro. Se disser que estou surpreso com sua morte, estarei mentindo. Ele estava com idade avançada e teve já um infarto e alguns AVCs. No entanto, já o botava no rol dos imortais que acabaram por morrer, como Niemeyer, Derci Gonçalves, Stan Lee e Godard.
Mineiro de Caratinga, nascido em 1932, Ziraldo Alves Pinto chegou a estudar no Rio de Janeiro e formou-se em Belo Horizonte, na UFMG. Ziraldo tinha um irmão famoso na época, o jornalista e também cartunista Zélio Alves Pinto. Porém, foi no Rio de Janeiro que construiu sua carreira de cartunista, trabalhando para jornais e revistas como Folha da Manhã, O Cruzeiro e Jornal do Brasil.
Alguns de seus personagens sem dúvida caíram no gosto do público. É o caso por exemplo de Jeremias, o Bom, o qual na realidade era uma paródia do cidadão modelo, que provavelmente seria cancelado hoje em dia nestes tempos tão polarizados por ser um “cidadão de bem”. Supermãe, a mãe superprotetora, também se tornou uma personagem de grande sucesso.
Em 1960, Ziraldo criaria a primeira revista em quadrinhos infantil nacional, A Turma do Pererê, pois queria ter no mercado uma HQ que se contrapusesse às HQs infantis norte-americanas, com as da Disney, Luluzinha e Bolinha, Pinduca etc. A Turma do Pererê fez sim certo sucesso, mas foi engolida pela Turma da Mônica de Maurício de Sousa. Ziraldo tinha uma concepção indianista e folclórica de um gibi infantojuvenil; porém, a Turma da Mônica dialogou melhor com as crianças, pois seus protagonistas eram crianças de um núcleo urbano, viviam no Bairro do Limoeiro em São Paulo, e eram lidos por crianças que também viviam no núcleo urbano e com quem se identificavam.
Evidentemente que se deve destacar a atuação de Ziraldo em O Pasquim, um periódico de humor inspirado no periódico francês Charlie Hebdo, que durante os governos militares, os “anos de chumbo”, foi sobretudo de oposição e sátira. Além de Ziraldo, havia outros jornalistas e cartunistas de renome, como Paulo Francis, Jaguar, Flávio Rangel e Sergio Cabral (o pai do Sergio Cabral político, ex-governador do Rio e condenado e preso por corrupção).
Com a redemocratização, Ziraldo passou a exercer o ofício que mais lhe deu notoriedade nas últimas décadas, que foi o de autor de livros infantojuvenis. Seu primeiro livro do gênero foi Flicts, em 1969; porém, foi apenas com O planeta lilás e, principalmente, O menino maluquinho, em 1980, seu maior sucesso editorial até hoje, que ele deslanchou de vez. Após esses, vieram outros grandes sucessos editoriais como O bichinho da maçã, O menino marrom, Uma professora muito maluquinha e outros.
Nos últimos anos, Ziraldo estava semiaposentado, em razão de seus problemas de saúde, porém vários de seus trabalhos foram exibidos em mostras, como a Zeróis, uma paródia dos super-heróis norte-americanos. Além disso, vez por outra, ele participava de eventos literários e fazia aparições públicas, mas estas foram ficando cada vez mais raras.
Enfim, fica aqui minha homenagem a esse que inegavelmente foi um dos grandes cartunistas brasileiros do século passado e também deste. Vale dizer que Ziraldo é pai da famosa cineasta Daniela Thomas. R.I.P.
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