PAPO DE CINEMA | Mourning Recipe
👨🏽💻Dados Técnicos
Japão
2013
Cor
129 minutos
Idioma: Japonês
Título original: 四十九日のレシピ, Shijuukunichi no Reshipi
Baseado no livro de mesmo nome da Autoria de Yuki Ibuki
Direção: Yuki Tanada
Roteiro: Hisato Kurosawa
Elenco: Hiromi Nagasaku, Renji Ishibashi, Masami Okada, Fumi Nikaido, Taizo Harada, Keiko Awaji, Yuri Ogino, Chika Uchida, Hideki Nakano, Ena Koshino, Miyoko Akaza e Narumi Kayashima
Cinematografia: Ryuto Kondo
Trilha Sonora: Yoshikazu Suo
Produção: TBS Service, GAGA, WoWow, Suurkiitos, East Japan Marketing & Communications Inc., Pony Canyon, Wilco Co. e NTT Plala.
Distribuição: GAGA
✍🏽Sinopse
A esposa de Ryohei falece repentinamente, deixando Ryohei sem forças para viver. Duas semanas após sua morte, uma mulher visita Ryohei e lhe dá uma receita que foi deixada por sua falecida esposa. Enquanto isso, a filha de Ryohei, Yuriko, vem visitá-lo enquanto o próprio casamento de Yuriko está prestes a terminar.
⚖️Créditos da Sinopse: Cine Asian Space
Inomináveis Saudações a todas e todos vós, Povo do Memória!
Este é um filme com diversas camadas, indo da tristeza à alegria, da solidão à festa, da reflexão a atos impensadas, do pessimismo ao otimismo. A partir do luto de Ryohei Atsuta (Renji Ishibashi) pela esposa Otomi Atsuta (Yuri Ogino), o filme percorre uma trajetória guiada pelo Roteiro da Felicidade como Cartões de Receita da Vida por esta deixados com diversas anotações e desenhos em um caderno. Entre as orientações, receitas culinárias, orientações de limpeza da casa e dicas de básicas manutenções desta. Seguindo esse roteiro rumo ao 49ª dia de falecimento, que na Cultura Japonesa significa o dia da partida definitiva do Espírito da Matéria, a experiência agradável das duas horas de filme segue por uma estrada bem honesta, simples e humilde. Com palavras muito desprovidas de academicismo, as quais não caberiam muito bem aqui, é uma obra gostosa a ser degustada tanto quanto as receitas postas em ação em sequências específicas.
Acompanhando o tema do luto em outra forma, a trama paralela gira em torno da filha de Ryohei, Yuriko Endo (Hiromi Nagasaku), que se separa do marido, Hiroyuki Endo (Taizo Harada), quando este engravida outra mulher. Esta era uma funcionária do Escritório onde ele trabalhava e o caso todo assumiu uma proporção insuportável para Yuriko logo no início do filme, quando vemos a tal amante do marido falar com ela ao telefone revelando o caso deles, o filho que geraram e pedindo-lhe para abandonar o mesmo (quase falando a frase clássica, completando o pedido, "de forma honrosa"). Não ficou bem claro durante todo o filme se ela, biologicamente ou por vontade própria, não poderia ter filhos; até é mostrado rapidamente em uma mesa da casa onde ela morava com o marido um livro de orientações para gravidez, mas nada muito aprofundado foi dito, deixando para o espectador chegar à conclusão do que realmente ocorria entre ela e o marido.
Sentindo-se humilhada, ela sai de casa e retorna para a do pai e da madrasta falecida, onde em uma cena muito engraçada o encontra sendo banhado nas costas por Hachie Imoto (Fumi Nikaido). Imoto foi uma das garotas cuidadas por Otomi na Reborn House, uma instituição de caridade para jovens desajustados e desesperançosos envolvidos com Drogas, Prostituição e outros caminhos desagradáveis. A cereja maior do bolo neste filme é a Fumi Nikaido, interpretando uma Lolita alegre e brincalhona que faz com que os depressivos da pequena Família Atsuta passem a positivamente observar com olhos mais suaves a vida pós-luto. Imoto foi escolhida por Otomi para cuidar e ajudar Ryohei quando partisse da Matéria, passando a representar muito na trama nas mudanças que no viúvo ocorrem. A ela une-se Haru (Masami Okada), ajudado por Otomi em outras condições de vida precária no Japão, já que ele se trata de um Ionissei (neto de japoneses) brasileiro que foi residir temporariamente naquele país para trabalhar. Misturando Português com Japonês, o personagem de Masami Okada é outro componente da receita inteira que torna este filme especial. Há referências ao Brasil abertamente e passagens que mostram a crescente amizade entre os personagens de um modo muito natural. No meio deles, com interseções de palavras duras para Yuriko e Ryohei, entra Tamako Atsuta (Keiko Awaji), irmã do precedente, com um pensamento tradicional e tentando dar como inquestionáveis tudo o que defende. Uma personagem dúbia, a qual é uma grande surpresa na reta final do filme e isto é algo que não vou aqui revelar.
Em sua naturalidade, Mourning Recipe dá a impressão de ter muito mais do que duas horas de duração e isso é muito bom porque são produções assim que preenchem a alma de um cinéfilo tão exigente quanto eu. Sem arremeter com uma mão pesada sobre a desenvoltura do desenvolvimento da história, a Diretora Yuki Tanada equaliza cada momento com uma calma tremenda e não deixa o ritmo decair em nenhum momento. Diretoras e Diretores menos técnicos poderiam acrescentar desnecessárias movimentações de artificiais naturezas, o que o filme não pede. Como acima eu escrevi, é tudo muito natural aqui e essa naturalidade toda transparece no modo de como cada membro do Elenco trabalha. Todos estão excelentes e não atropelam uns aos outros em duelos interpretativos, algo que em muitos filmes dramáticos de maior densidade é um grandioso problema. Não há uma densidade tão pesada neste filme, o que até seria estranho porque a mensagem dele é de total otimismo e fluidez diante da inevitabilidade da morte e dos rompimentos vários que ocorrem, em todos os sentidos, com a Espécie Humana como um todo. Muito positiva a atmosfera e a harmonia conseguidas aqui, uma nota de frescor para corações que estão pesados demais para verem um sentido mais alto em tudo que ocorre após grandes perdas.
O filme se direciona para quem não tem mais qualquer esperança ou vê à frente luzes maiores após uma dolorosa perda. Seja a perda de alguém muito amado ou de uma vida segura ao lado de alguém que se imaginava como companhia perfeita, a orientação da Alma desta obra fala aos corações fatigados e horrorizados com a amoralidade do Destino e do Tempo. Muitas vezes, sentimos estas duas Forças como implacáveis Carrascas nossas, cruéis demais em muitas situações que nos desesperam e afundam. No entanto, este filme aqui mostra que os dois são os melhores Mestres que podemos ter porque nos faz amadurecer e gerar perspectivas que nos guiem a cada aspecto do nosso viver e sobreviver após atravessarmos nossos abismos infernais pessoais. Esperança, boas vibrações, vitalidade e harmonia completas estão dentro das mensagens das entrelinhas desta história como a perfeita receita para uma vida tranquila. Não que seja uma vida 100% feliz e de constantes sorrisos, gargalhadas, danças e cantos sem pensar em mais nada além do momento de um divertimento que faça esquecer toda Dor. No entanto, tranquilidade pode vir da simples aceitação do que ocorre e não ocorre conosco ou com os personagens de um filme que passamos a amar.
Eu amei assistir a este filme e demorei um pouco para aceitar o seu final. Aceitei a este quando parei para meditar um pouco sobre ele e vi que não foi algo nada distante da nossa realidade. Os lutos de Ryohei e Yuriko foram superados, ambos de maneiras diferentes, o que, ao fim, é o mais importante a se dizer concluindo agora esta Resenha. As receitas da aceitação estão nas mais simples coisas que fazemos todos os dias e levam a nossa mente para patamares de uma silenciosa suavidade marcada pela sutileza da passagem temporal. Assim, Destino e Tempo deixam de ser atrozes, passando a ser entendidos como necessárias formas das mudanças quando nós fazemos as próprias para o nosso Ser. Ninguém está destinado a ficar em luto e a morrer junto com quem da Matéria partiu; nem a ficar chorando e sofrendo por quem demonstrou não merecer um afeto e amor sinceros pelo resto da Existência. No primeiro caso, a pessoa desencarnada nem se sentiria bem observando seus entes queridos sofrendo interminavelmente. No segundo, cada um(a) sabe o que melhor fazer sobre a vida sentimental e, baseado na conclusão do filme, somente afirmo que respeito se deve ter quando no nosso mundo real homens e mulheres tomam atitudes que, para nós, pareçam ser absurdas e desprovidas de inteligência.
Cada um(a) deve se espelhar, se quiser, nos personagens desta obra maravilhosa e criar a sua própria receita da Felicidade, Superação e Aceitação ou algo próximo destes Estados Internos para a humana vivência dos dias. A Filosofia Oriental em Mourning Recipe está ativa do início ao fim e é preciso compreender cada parte deste filme dentro da ótica dela, a qual é muito diferente do nosso Ocidente apressado, imediatista e cada vez mais esvaziado de autenticidade, profundidade e identidade. Para quem for assistir, peço para pensar como um japonês ou japonesa seguidor(a) ou simples leitor(a) de livros da Filosofia Budista e do Taoísmo. É um caminho melhor para compreendê-lo, assim como a filmes de natureza idêntica à dele e que não tem nenhuma pressa de chegarem ao ponto final.
Me senti triste quando o filme chegou ao ponto final dele e queria mais… Mas, como em uma das mensagens diretas do filme, nem tudo pode ser como desejamos ou imaginamos. Valeu muito a experiência cinematográfica porque sou uma pessoa em processo de luto por causa de minha mãe. Filmes não fazem milagres, como apagar essa sensação de perda angustiante e tremenda que carregarei pelo resto da vida. Fica a saudade imensa, apesar da melhora em algumas partes e a esperança de uma manhã brilhante na qual o Grande Sol rasgue todos os tecidos da tristeza.
Uma Manhã que chegou neste filme que Resenhei hoje.
Uma Manhã que vai chegar para mim e para todos em luto, seja este de qual natureza for.
Saudações Inomináveis a todas e todos vós, Povo do Memória!
![]() |
| Yuki Tanada |


.png)
















































Nenhum comentário